Sim, segundo o Espiritismo, Deus pune!

Sim, segundo o Espiritismo, Deus pune!

Tempo de Leitura: 6 minutos

Deus pune ou não pune?

Tenho constantemente visto confrades espíritas insistindo em “martelar” a ideia de que Deus não pune ninguém ou de que “punir” ou “castigar” são ideias contrastantes com a proposta pedagógica da evolução espiritual concernente ao Espiritismo. Entendo perfeitamente a intenção de afastar do imaginário social espírita a concepção de uma divindade cruel, portadora dos mesmos baixos sentimentos e ímpetos cruéis que podem mover a humanidade, a torturar suas criaturas com tintas de sadismo, mas penso que não se deveria fazê-lo ao custo de contrariar a própria lógica.

Punição e castigo nas obras de Allan Kardec

Seria inadequado enumerar neste espaço limitado todas as vezes em que as palavras “punição” e “castigo”, como substantivos, ou os verbos “punir” e “castigar”, aparecem nas mais diversas obras fundamentais de Allan Kardec, na maioria das vezes diretamente atrelada às diretrizes divinas. Seleciono aqui apenas alguns trechos:

“Que é o castigo? A consequência natural, derivada desse falso movimento; uma certa soma de dores necessária a desgostá-lo da sua deformidade, pela experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma e a buscar o porto de salvação. O castigo só tem por fim a reabilitação, a redenção. Querê-lo eterno, por uma falta não eterna, é negar-lhe toda a razão de ser.” 1

“Não há descrição possível das torturas morais que constituem a punição de certos crimes. Mesmo o Espírito que as sofre teria dificuldade em vos dar delas uma ideia. Indubitavelmente, porém, a mais horrível consiste em pensar que está condenado sem remissão.” 2

“Não há, em relação à natureza e à duração do castigo, nenhuma regra absoluta e uniforme; a única lei geral é que toda falta recebe sua punição e toda boa ação sua recompensa, segundo seu valor.” 3

“Esse dever se estende naturalmente às pessoas que fazem as vezes de pai e de mãe, as quais tanto maior mérito têm, quanto menos obrigatório é para elas o devotamento. Deus pune sempre com rigor toda violação desse mandamento.” 4

Deus castiga os indivíduos e os povos?

“Outro pensamento não menos profundo é o que atribui as calamidades dos povos à infração da lei de Deus, porque Deus castiga os povos como castiga os indivíduos. É certo que se praticassem a lei da caridade, nem haveria guerras, nem grandes misérias. É a prática dessa lei que conduz o Espiritismo.” 5

“Muito presunçoso, pois, seria aquele que pretendesse que Deus deveria ter regulado o mundo de outra maneira, pois isto significaria que, em seu lugar, teria feito melhor. Tais são os Espíritos cujo orgulho e ingratidão Deus castiga, relegando-os a mundos inferiores, de onde só sairão quando, curvando a cabeça sob a mão que os fere, reconhecerem o seu poder. Deus não lhes impõe esse reconhecimento. Ele quer que o reconhecimento seja voluntário e fruto de suas observações, razão por que os deixa livres e espera que, vencidos pelo próprio mal que a si atraem, voltem para ele.” 6

“Se os suicidas sofrem longos castigos, Deus pune ainda mais os que se matam com grandes ideias na mente e no coração.” 7

“EXPIAÇÃO – pena que sofrem os Espíritos em punição de faltas cometidas durante a vida corpórea. Como sofrimento moral, a expiação se verifica no estado errante; como sofrimento físico, no estado de encarnado. As vicissitudes e os tormentos da vida corpórea são, ao mesmo tempo, provas para o futuro e expiação para o passado.” 8

“Mas a encarnação torna-se uma punição quando, não tendo feito o que devia, o Espírito é constrangido a recomeçar sua tarefa e multiplica suas existências corpóreas penosas por sua própria culpa. Um estudante só é graduado após ter passado por todas as classes. Essas classes são um castigo? Não. Elas são uma necessidade, uma condição indispensável ao seu avanço. Mas se, pela preguiça, for obrigado a repeti-las, aí é uma punição. Ser aprovado em algumas é um mérito. O que é certo, portanto, é que a encarnação na Terra é uma punição para muitos que a habitam, porque poderiam tê-la evitado, ao passo que eles talvez a tenham duplicado, triplicado, centuplicado, por sua própria culpa, assim retardando sua entrada em mundos melhores. O que é errado é admitir, em princípio, a encarnação como um castigo.” 9

A punição no mundo dos Espíritos

“Há certas pessoas que dizem que a punição infligida ao criminoso no mundo dos Espíritos, e que consiste na visão contínua de seu crime, não pode ser muito eficaz, e que em nenhum caso essa punição por si só determina o arrependimento. Dizem que um perverso natural, como é o caso de um criminoso, não pode senão amargurar-se cada vez mais por essa visão, assim se tornando pior. Os que assim falam não fazem uma ideia do que pode tornar-se tal castigo; não sabem quanto é cruel esse espetáculo contínuo de uma ação que gostariam de jamais haver cometido. Certamente vemos alguns criminosos se empedernirem, mas muitas vezes é só por orgulho, e por quererem parecer mais fortes do que a mão que os castiga; é para fazer crer que não se deixam abater pela visão de imagens vãs, mas essa falsa coragem não tem longa duração; em breve vê-los-emos enfraquecerem diante desse suplício, que deve muito de seus efeitos à sua lentidão e à sua persistência.” 10

“984. As vicissitudes da vida são sempre a punição das faltas atuais? – Não; já dissemos: são provas impostas por Deus, ou que vós mesmos escolhestes como Espíritos, antes de encarnardes, para expiação das faltas cometidas em outra existência, porque jamais fica impune a infração das leis de Deus e, sobretudo, da lei de justiça. Se não for punida nesta existência, sê-lo-á necessariamente noutra. Eis por que um, que vos parece justo, muitas vezes sofre. É a punição do seu passado.” 11

“(A São Luís.) Tende a bondade de nos dar vossa apreciação pessoal sobre o ato do Espírito que acabamos de evocar. – R. Esse Espírito sofre justamente, pois não confiou em Deus, o que é uma falta sempre punível; a punição seria terrível e muito longa se ele não tivesse a seu favor um motivo louvável, que era o de impedir o filho de ir para a morte; Deus, que vê o fundo dos corações, e que é justo, não o pune a não ser segundo suas obras.” 12

“A justiça quer que a recompensa seja proporcional ao mérito, como a punição à gravidade da falta; há, pois, graus infinitos nos gozos da alma, desde o instante em que ela entra no caminho do bem, até aquele em que atinge a perfeição.” 13

As aflições e as consequências das nossas escolhas

Cessemos a lista por aqui. Nossos sofrimentos podem ser consequências de nossas escolhas equivocadas no presente, nesta mesma encarnação. Comer em excesso, por exemplo, pode nos causar uma robusta indigestão. Nosso organismo tem limites que voluntariamente ultrapassamos, logo, ele responderá a contento. Podem, por outro lado, ser provas ou expiações que conscientemente escolhemos no mundo espiritual, antes de encarnar, pelo conhecimento de que dispomos de nossas necessidades evolutivas, orientados simultaneamente pelos Espíritos mais elevados; podemos nos equivocar nessa escolha, pode ser permitido que escolhamos um relativo estacionamento, em uma encarnação mais “tranquila” do que deveria, ou desafios acima de nossas forças. A frustração subsequente, porém, cedo ou tarde, nos encaminhará ao acerto, já que somos Espíritos imortais, pois o tempo desperdiçado também causará sofrimento. Seja como for, as aflições sempre serão, em qualquer caso, consequência de nossas imperfeições. A cada imperfeição, há um sofrimento ou limitação correspondente, de que nos despojaremos quando formos perfeitos.

Deus pune segundo o Espiritismo?

Diz-se, à luz disso, que sofremos como consequências de nossos erros, logo, não é Deus que nos está punindo. É um erro. O simples fato de ações terem consequências é uma lei natural, e o criador das leis naturais, de todas elas, é Deus.

Deus não precisa, é certo, nos lançar raios ou nos despejar nas chamas do Inferno para que soframos. Ele não precisa derrogar a própria lei para isso. Entretanto, justamente, se é através dessa mesma lei que sofremos, e ela só existe e só se mantém perpetuamente porque Deus nunca cessa de agir e sustentar a Sua criação, é perfeitamente correto dizer que Deus pune ou castiga, e, consequentemente, segundo a filosofia espírita, existe punição divina.

Punição divina e a concepção de Deus

Nossa preocupação em afastar ideias preconcebidas muito perturbadoras ou antropomórficas de Deus não pode se transformar em uma atitude de excessivo politicamente correto que termina por ser desprovida de substância lógica – e mesmo por ser antidoutrinária.

Deus pune sim, e não há nada de absurdo ou apavorante nisso.

A punição também faz parte das leis da natureza e é um ato de amor.

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Sobre o Autor

Imagem Extraida LIBERALISMO | Panorama com Lucas Berlanza https://www.youtube.com/watch?v=3zrOkW5F1vE&ab_channel=BrasilParalelo
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Lucas Berlanza é jornalista, escritor e presidente do Instituto Liberal. Autor de livros como "História Geral do Espiritismo: Resumo Expositivo", "O Espiritismo perante seus inimigos e desafios contemporâneos" e "O Progresso Segundo o Espiritismo"

  1. O Livro dos Espíritos > Parte Quarta – Das esperanças e consolações > Capítulo II – Das penas e gozos futuros > Duração das penas futuras > 1009.
  2. O Livro dos Espíritos > Parte quarta — Das esperanças e consolações > Capítulo II — Das penas e gozos futuros > Natureza das penas e gozos futuros. > 973.
  3. O Céu e o Inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo > Primeira parte — Doutrina > Capítulo VII — As penas futuras segundo o Espiritismo > Código penal da vida futura.
  4. O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo XIV — Honrai a vosso pai e a vossa mãe > Piedade filial > 3.
  5. Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1863 > Março > Palestras familiares de além-túmulo – Clara Rivier (Sociedade espírita de Paris, 23 de janeiro de 1863 – Médium: Sr. Leymarie).
  6. Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1864 > Março > A perfeição dos seres criados.
  7. Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1862 > Maio > Palestras familiares de além-túmulo > Uma paixão de além-túmulo.
  8. Instruções práticas sobre as manifestações espíritas > Vocabulário espírita > Expiação.
  9. Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1863 > Junho > Do príncipio da não-retrogradação do Espírito.
  10. Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Jean Ryzak, a força do remorso.
  11. O Livro dos Espíritos > Parte quarta — Das esperanças e consolações > Capítulo II — Das penas e gozos futuros > Penas temporais. > 984.
  12. O Céu e o Inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo > Segunda parte — Exemplos > Capítulo V – Suicidas > O pai e o recruta.
  13. O que é o Espiritismo? > Capítulo III — Solução de alguns problemas pela doutrina espírita > O homem depois da morte > 162.