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O Problema do Aspecto Religioso no Espiritismo

Tempo de Leitura: 16 minutos

Uma Proposta de Conciliação

Espiritismo e religião: por que a questão permanece?

Não há exagero em proclamar que a polêmica mais perene na história do movimento espírita desde a morte de Kardec é a da relação do Espiritismo com a religião, notadamente a pertinência ou não de um alegado “aspecto religioso”.

O debate sobre isso persiste até hoje, com os polos da contenda proclamando a certeza de haver ou não haver o referido aspecto e julgando ser essa uma das questões mais determinantes para compreender os caminhos ou descaminhos experimentados pela doutrina ao longo das décadas.

Nosso entendimento a respeito disso sempre foi o de que a pertinência da associação do Espiritismo a um aspecto religioso depende do sentido atribuído à palavra “religião”.

Porém, a discussão, travada dos tempos de Léon Denis (1846-1927) ou Angeli Torteroli (1849-1928) até os dias de hoje, não se prende a um pleito semântico, mas se estende também a um pleito metodológico: há quem afirme, e há base nos textos de Allan Kardec (1804-1869) para isso, que o uso regular da palavra “religião” como cartão de visitas é prejudicial, porque, no senso comum, ela inevitavelmente despertaria uma ideia de forma.

Por isso, afirmar a polissemia não é suficiente para que as opiniões distintas nesse velho e persistente embate cheguem a um “denominador comum”.

A tese que sustentamos é que a disputa acerca desse assunto tem sido muito supervalorizada pelos espíritas de todas as gerações e que uma conciliação não só é possível como deveria ser feita, desde que haja concordância na essência do fenômeno descrito, no caso, o Espiritismo. É o que procuraremos demonstrar agora, cientes de que não temos condições de encerrar a disputa, mas desejando acrescentar uma pequena peça ao debate.

O entendimento de Allan Kardec sobre Espiritismo, Ciência e Religião

Comecemos pelo entendimento de Kardec, expresso em sua época, ao longo de sua atuação como fundador e sistematizador do Espiritismo.
Atendo-nos aos textos, embora o mestre francês tenha escrito que a Ciência e a Religião deveriam se unir, posto que uma “revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral”; que a religião “adquirirá inabalável poder” quando se apoiar nas descobertas e afirmações científicas, pois ambas, a Ciência e a Religião, são “alavancas da inteligência humana”1; e que o Espiritismo tem “consequências religiosas”2, ele quase sempre negou que o Espiritismo pudesse ser considerado uma religião.

Definiu-o como sendo simultaneamente “ciência de observação” e “doutrina filosófica”3; “ciência prática”4; uma ciência compreendida em uma parte experimental e uma parte filosófica5; uma ciência específica adaptada ao estudo de um objeto muito distinto, o Espírito, mas cujas perquirições fundamentais não seriam “da alçada da Ciência”6 como corporação, julgada incompetente para se pronunciar a seu respeito, devendo resultar de uma “convicção pessoal”7, que os cientistas poderiam esposar independentemente do fato de serem cientistas; e, por fim, uma “ciência filosófica”8 ou uma “ciência moral e filosófica”9.

A ciência espírita e suas consequências filosóficas e morais

Kardec passou os anos de sua atuação como divulgador do Espiritismo sustentando, portanto, que existia um tipo novo e específico de ciência, a “ciência espírita”, não compreendida nos domínios das chamadas ciências naturais convencionais, e que seu discurso se comporia de dois aspectos: experimental um, baseado na observação de fenômenos e na dedução de conclusões – sendo a principal delas a de que os Espíritos existem –, e filosófico o outro, que consistiria, ao contrário da Metapsíquica e da Parapsicologia, na constituição de um sistema doutrinário de consequências morais a partir dos conhecimentos obtidos através dos fenômenos e com a interação e análise de seus agentes fundamentais, isto é, os Espíritos.
Na época, a demarcação mais rígida da contemporaneidade entre o campo científico e o campo filosófico não estava tão presente, utilizando-se ainda muito comumente acepções mais antigas dos termos; por exemplo, o que se chama hoje de “ciências naturais” foi chamado, por muito tempo, de “filosofias naturais”. O termo “filosofia” não englobava apenas os braços de conhecimento abstrato como a Estética, a Metafísica ou a Epistemologia, mas também, por vezes, as ciências naturais e experimentais. Uma separação mais fluida entre Ciência e Filosofia era habitual.

Consequentemente, conceitos como “ciência moral” ou “ciência filosófica” eram muito mais usuais ao tempo de Kardec do que são hoje, o que tornava mais claro o entendimento do que ele estava propondo para o público leitor de seu tempo. Tais conceitos estavam estruturados em obras de autores como o filósofo espiritualista Paul Janet (1823-1899) e o também filósofo, físico e matemático André-Marie Ampère (1775-1836). No sistema de Janet, por exemplo, as “ciências morais” eram responsáveis por estudar as ações e elaborações humanas; incluíam como subcategoria as “ciências filosóficas”, entre as quais se enquadrariam a “Metafísica” e as ciências “psicológicas”, como a Psicologia propriamente dita (entendida na época como o “estudo da alma”), a Moral, a Ética, a Lógica e a Estética. Não à toa, Kardec apresentava a Revista Espírita como um “Jornal de estudos psicológicos”. O Espiritismo era proposto, de certo modo, como uma aliança entre a Psicologia e a Moral, estudando, porém, o mais íntimo do ser, as manifestações sondáveis de sua essência: o Espírito. Não seria uma espécie do mesmo gênero que a Química ou a Botânica, porque não existiria desatrelado do desenvolvimento de conversações filosóficas e da constituição de toda uma ampla teoria, de todo um amplo paradigma para estabelecer apreciações, compreensões e posições perante a vida e a existência.

Kardec e a possibilidade da dupla pertença religiosa

Essa “ciência filosófica” espírita teria a missão de articular o pensamento científico e o pensamento religioso, oferecendo elementos experimentais e racionais para a convicção no futuro da alma que as religiões (ou ao menos uma boa parcela delas) sempre preconizaram. Por alimentar essa pretensão, Kardec, de fato, disse em mais de uma ocasião que os espíritas poderiam, ao mesmo tempo em que professassem a convicção espírita, conservar-se em suas religiões de origem, conclamando-os a não praticarem cerimônias de nenhuma religião específica em suas reuniões experimentais ou de estudo, mas a aceitarem em seu seio pessoas que se apresentassem como profitentes de quaisquer religiões, como o Catolicismo ou o Judaísmo.

Kardec estava diante de um movimento novo, que lhe cabia gestar e conformar. Ninguém que dele se aproximasse seria, naquele momento, espírita “de berço”; proviriam de suas crenças de origem, em relação às quais exibiriam sentimentos de afeição e imperativos sociais. Também o mestre francês estava diante de fenômenos naturais, acessíveis experimentalmente, revelando leis igualmente naturais que ele julgava que poderiam ser acolhidas por todos e teriam um impacto moral profundo nas reflexões humanas. Não queria abortar seu desenvolvimento encerrando essas experimentações e reflexões em determinado nicho. No entanto, mesmo àquela época, a maioria dos espíritas, segundo as estimativas constantes nas estatísticas elaboradas pelo próprio Kardec, embora frequentasse alguma religião organizada, era especificamente identificada como “não ligada ao dogma”10 – isto é, se somarmos os chamados “católicos romanos, livres pensadores, não ligados ao dogma”, que, segundo Kardec, compreenderiam 50% dos espíritas por filiação religiosa, aos 10% de ditos “protestantes liberais”, teríamos a noção de que a expressão indica pessoas com maior flexibilidade teórica em seus pontos de vista religiosos, ou seja, que não seguiam simplesmente a ortodoxia de suas religiões, substituindo-a pelos princípios teóricos espíritas. Kardec não lhes queria “dar ordens” sobre a maneira de orar ou os locais que deveriam frequentar ou deixar de frequentar, apenas apresentar um conhecimento novo; mas inevitavelmente a adesão ao Espiritismo determinaria, por exemplo, reconhecer que há reencarnação e não ressurreição da carne, ou que o Espírito é um ser individual imortal e não um agregado que se “dissolve”, como proclamam algumas crenças orientais. É uma pergunta legítima se a religião continua sendo a mesma coisa ao abandonar os princípios de sua doutrina, no máximo reinterpretando os dogmas para caberem nos fundamentos do Espiritismo, e manter apenas as práticas exteriores. Para as próprias doutrinas religiosas em si, como o Catolicismo ou o Islamismo, não haveria dúvida de que não é possível ser católico ou muçulmano e espírita ao mesmo tempo.

Não gostaríamos de nos estender nessa discussão sobre a possibilidade da dupla pertença; nossa opinião é de que a atitude de Kardec foi compreensível e diplomática, e um indivíduo pode praticar socialmente um culto religioso e defender as ideias espíritas ao mesmo tempo, se o desejar, mas as religiões precisariam rever suas posições e “negociar” seus dogmas, reconhecendo os fatos naturais expostos pelo Espiritismo, para que ele pudesse funcionar como um terreno neutro entre elas, o que não aconteceu (pelo menos até hoje) – e não me parece que a responsabilidade por isso não ter ocorrido seja exclusivamente dos inúmeros erros dos espíritas, pois essa rejeição já ocorria amplamente na época em que o próprio Kardec atuava.

Há indícios de que ele mesmo começava a perceber esse problema e entender a necessidade de os espíritas vivenciarem sua fé autonomamente, o que é sugerido no interessante trabalho Religião e Espiritismo – análise de novas fontes de informação, organizado em 2021 por Carlos Luiz, César S. Santos, Ery Lopes, Luís Jorge Lira Neto e Wanderlei dos Santos, disponível no Portal Luz Espírita, ao qual remetemos o leitor que queira se aprofundar nesse tema.

Na prática social contemporânea, é fato que o Espiritismo é uma corrente de pensamento autônoma, esposada pelos espíritas por si mesma, sem a necessidade de acoplar-se a outras crenças metafísicas, ao menos na maioria dos casos, entre os quais nós nos podemos pessoalmente incluir.

O que Kardec entendia por “religião”?

Gostaríamos de nos concentrar aqui na questão do dito “aspecto religioso” em si.

Seria redundante trazer à tona todos os trechos do famoso artigo da Revista Espírita de novembro de 1868 em que Kardec expressa seu entendimento “final” sobre o assunto.

Os leitores já devem estar cansados de rever esses trechos onde quer que a polêmica se manifeste. Resumidamente, ali Kardec reforçou a posição de que o termo “religião” estaria identificado, na sociedade, com a ideia de forma, remetendo a culto, liturgia ou sacerdócio, e por isso evitou e evitaria orná-lo com esse título.

Porém, reconheceu um “sentido filosófico” em que o termo seria adequado, no qual “religião” significaria “laço”. A ideia é que uma “religião” seria um laço de princípios que uniria adeptos em solidariedade e comunhão profunda de sentimentos, ainda que sobre questões unicamente pertinentes ao mundo material. Nesse sentido, o Espiritismo seria uma religião, mas um partido político, um clube de futebol ou mesmo a própria amizade também poderiam ser chamados de “religiões”.

Em síntese, para Kardec, o Espiritismo seria um conjunto de conhecimentos filosoficamente estruturados, obtidos por meio de evidências extraídas experimentalmente de uma fenomenologia ao alcance da humanidade, cujas consequências morais envolveriam a formação de um laço de irmandade e comunhão entre seus estudantes e, consequentemente, adeptos.

Nesse sentido, e apenas nesse sentido, pouco usual, Kardec o reconheceu como religião.

Isso permitiria afastar, de pronto, algo como a famosa representação geométrica do triângulo apresentado por Emmanuel, que não apenas afirmou o aspecto religioso como o colocou acima dos outros, o que realmente compromete o conteúdo da proposta doutrinária.

O aspecto religioso segundo Herculano Pires

No entanto, não concordamos em que isso rechace suficientemente as conceituações que autores como José Herculano Pires (1914-1979), por exemplo, formularam acerca da pertinência do reconhecimento de um aspecto religioso ao Espiritismo, e isso porque suas referências bibliográficas para a construção do conceito são outras.

Por mais que louvemos o resgate dos fundamentos kardecianos, por mais atemporais que eles sejam, todo autor trabalha, para materializar as ideias que quer expor, com a linguagem de uma época e as circunstâncias em que está operando.

Kardec trabalhou com duas acepções do termo “religião”, mas elas não são as únicas que existem, posto que o termo é, até hoje, academicamente considerado um “conceito em disputa”.

Na prática, o que costumamos chamar de “religião” envolve uma porção de doutrinas diferentes que guardam muitas assimetrias estruturais entre si, sendo até questionado atualmente se uma única palavra, isto é, “religião”, serviria para abarcá-las todas adequadamente. Discute-se também, volta e meia, se Budismo ou Confucionismo seriam adequadamente chamados de “religiões”, por exemplo. O conceito, ademais, é basicamente ocidental, e só se sentiu necessidade dele mediante a quebra da unidade político-teológica medieval com a Reforma Protestante.

Quando Herculano Pires fala em um “aspecto religioso”, ao contrário de Emmanuel (embora o filósofo paulista se exceda em elogiar o seu malfadado “triângulo”; concordamos em que Herculano não foi tão suficientemente crítico daquele Espírito quanto deveria ter sido), ele nunca diz que esse aspecto superaria os demais ou se destacaria entre eles. Diz que ele é “consequência”, isto é, apresenta as “consequências religiosas”, de que Kardec havia falado mais objetivamente, como sendo elas próprias um “aspecto” do Espiritismo. Trata-se de uma questão de linguagem. Assim ele disse:

“Já expliquei aqui numerosas vezes que a ciência é a base do Espiritismo, a ciência espírita, porque foi dela que nasceu o Espiritismo. A filosofia é uma consequência natural da ciência espírita, porque esta ciência, como todas as ciências, oferece-nos explicações de fenômenos que não eram até então explicados. Ora, ao explicar esses fenômenos, essa ciência modificou a nossa concepção do mundo. Vem daí o aparecimento da filosofia espírita. Toda filosofia é uma concepção do mundo, mas toda filosofia determina um novo tipo de moral. Ora, se o senhor, por exemplo, tem uma filosofia materialista e de repente o senhor passa para um tipo de filosofia espiritualista, (…), o seu tipo de moral, de comportamento humano tem de modificar-se, porque do ponto de vista materialista para o espiritualista há uma grande virada, uma grande modificação na posição do homem diante do mundo, diante da humanidade e diante de si mesmo. O senhor tem de mudar as suas condições morais, o seu comportamento, a sua orientação de vida. Ora, então, dizia Kardec, a filosofia espírita força naturalmente o aparecimento de um tipo novo de comportamento do homem diante da vida. Este comportamento vai resultar num novo tipo de moral, mas essa moral não se liga apenas ao comportamento terreno, porque o Espiritismo nos mostra a vivência do homem em dois planos, no plano material e no plano espiritual. E, quando tratamos do plano espiritual, nós temos as relações do homem, não apenas com outros homens, mas também com Deus e com os Espíritos superiores. Então, surge naturalmente o aspecto religioso. Assim, eu não quero de maneira alguma dizer que qualquer das partes do Espiritismo seja superior à outra. Todas elas integram um todo, que é a Doutrina Espírita”11.

O mesmo Herculano Pires mencionou ainda que se referia ao Espiritismo como religião tal como Arthur Conan Doyle (1859-1930) chamava o Espiritualismo Moderno, do qual a obra de Kardec é uma subdivisão, de “religião psíquica”, a “religião do futuro” 12, “uma religião de conhecimento”13, uma fé religiosa deduzida da perquirição científica e filosófica.

Também se referiu a Henri Bergson (1859-1941), filósofo que distinguiu a religião entre “estática” e “dinâmica”.

Na visão bergsoniana, religião não depende de ritos ou liturgias, mas seria uma resposta da vida humana a determinadas necessidades profundas, assim como Kardec escreveu que a religião seria uma alavanca da inteligência que desvelaria a moral.

A religião nasceria, como fenômeno humano, da percepção da própria mortalidade, ensejando a formação de fábulas e imagens simbólicas para a proteção contra o desespero.

Essa seria a “religião estática”, enquanto a “dinâmica”, ao contrário, adviria da experiência, ainda que Bergson estivesse enfatizando a “experiência mística” individual e não exatamente a experiência mediúnica do Espiritismo.

Assim, Herculano proclamou que,

“paralelamente ao desenvolvimento das pesquisas espíritas, as pesquisas sociológicas, antropológicas e filosóficas sobre a Religião levaram a cultura atual a rejeitar o antigo conceito de Religião como organismo social dotado de sistemas tradicionais. A existência de religiões desprovidas desses requisitos normais, a começar da simplicidade das religiões primitivas, e o aprofundamento dos estudos a respeito mostraram que o fenômeno religioso independe dessas condições artificiais. Com a tese de Henri Bergson sobre as origens da Moral e da Religião, o problema se esclareceu, dando razão ao anúncio de Jesus e às profecias bíblicas sobre a interpretação em espírito e verdade que não se entrosava nos modelos. Bergson estabeleceu a distinção entre as religiões estáticas do formalismo social e a religião dinâmica e independente que se sobrepõe a todo formalismo. A Religião Espírita apareceu então, no quadro das pesquisas, como o modelo ideal das religiões do futuro. Firmada apenas no sentimento religioso, na lei de adoração da tese espírita, a nova Religião apresentava-se liberta dos aparatos do culto exterior, das pesadas e custosas organizações clericais hierárquicas e da suntuosidade arrogante dos templos. A Religião se libertava dos interesses humanos, das ambições de poder e supremacia dos clérigos e voltava-se para Deus”14. Também Herculano estava utilizando o conceito de Pestalozzi (1746-1827) de que “a religião verdadeira é a moralidade”, o que ele julgava “um dos motivos por que Kardec dizia que o Espiritismo tem consequências morais em vez de referir-se a consequências religiosas” 15

– embora, em raros momentos, esta última forma também tivesse aparecido no texto do professor francês.

Diferentes conceitos de religião e o Espiritismo

Acreditamos que existe uma boa razão para autores como Herculano se preocuparem em enfatizar a presença desse dito “aspecto religioso” no debate cultural recente.

É certo que ele não pode ser considerado uma coisa à parte, muito menos acima ou desatrelada dos fundamentos apresentados por Kardec.

Não existe, entretanto, nenhuma outra ciência que forme uma “comunidade moral” entre seus adeptos (Física, Química, Geografia, nenhuma) nem se ressaltaria outra filosofia que, da mesma forma que o Espiritismo, mais do que se referir à Divindade através de conceitos especulativos, oriente diretamente sobre a relação que se deve manter com ela (vide a lei de adoração). A cultura contemporânea costuma reservar essas características ao universo da manifestação religiosa. Não sendo o conceito de “religião” um conceito ou princípio doutrinário e sim um conceito da cultura geral, apropriado e redefinido em diferentes bibliografias e considerado até hoje um “conceito em disputa”, Kardec ter escrito sobre ele dentro de determinadas definições (que não são as únicas) não fecha questão sobre o problema.

O que os religiosos buscam na religião, salvo o rito, o Espiritismo também é capaz de oferecer a seus adeptos e, na prática, oferece: uma compreensão do sentido último da existência vinculada à formação de uma comunidade moral, ao reconhecimento da Divindade e da pertinência bem como dos meios de adorá-la.

É uma dimensão particular da cultura que o Espiritismo também alcança, e nos parece justificável realçá-la, sem prejuízo dos fundamentos experimentais e filosóficos que embasam o edifício doutrinário, já que se trata de um campo relevante da vida humana que a proposta espírita consegue também apreender e satisfazer. Desnecessário pontuar que, sem esse campo, ou seja, sem a adoração e a relação com a Divindade, as consequências do Espiritismo estariam dolorosamente amputadas.

Poderíamos fazer desfilarem aqui outras conceituações de “religião” para além de Bergson ou Herculano Pires em que não nos pareceria nada absurdo enquadrar a proposta espírita sem ter que identificá-la forçosamente com a forma religiosa tradicional.

Para Friedrich Schleiermacher (1768–1834), por exemplo, religião não é ritual nem dogma, mas “o sentimento de absoluta dependência”16 em relação a uma transcendência. Ora, por mais que o Espiritismo advogue a liberdade individual da criatura, o simples fato de existirmos e podermos agir depende da concessão divina, de nossa Criação.

O pensamento espírita advoga nossa dependência e gratidão a Deus, sinônimo de humildade e realismo. Por isso, dentro do conceito de Scheleiermacher, o Espiritismo pode ser considerado religioso.

Para Edward Burnett Tylor (1832-1917), a religião é “a crença em seres espirituais”17. Nem precisamos dizer que o Espiritismo se encaixa perfeitamente aqui.

William James (1842-1910) diria que religião é o conjunto de “sentimentos, atos e experiências de indivíduos em sua solidão, na medida em que se percebem em relação com aquilo que consideram divino”, sendo “divino”, nesse contexto, “qualquer objeto de natureza divina, seja ou não uma divindade concreta”18, ao qual o indivíduo se sente impelido a responder com solenidade e gravidade.

Se o Espiritismo reconhece Deus e a pertinência de adorá-Lo, ele reconhece um sagrado, isto é, digno de respeito e veneração, reconhecendo também, por óbvio, a transcendência. Não seria correto dizer simplesmente que o Espiritismo “rompeu com o sagrado”; ele apenas o racionaliza e lhe dá outras bases justificadoras. Também aqui o Espiritismo caberia sem grande problema. Paul Johannes Tillich (1886-1965) definia religião como “aquilo que constitui nossa preocupação última, a substância, o fundamento e a profundidade da vida espiritual do homem”19. Ora, tampouco aí pode haver qualquer dúvida de que o Espiritismo contempla essa dimensão. Poderíamos prosseguir com outros exemplos, mas detenhamo-nos aqui; nenhum desses conceitos é exatamente igual aos dois que Kardec trabalhou na Revista Espírita. Tudo depende, portanto, voltamos ao começo, do sentido do termo que empregamos.

O problema do significado da palavra “religião”

Entretanto, objetarão novamente, o uso comum da palavra “religião” na atualidade ainda desperta uma ideia de forma. Concedemos; na prática, se dissermos, ao primeiro que apareça, que o Espiritismo é uma religião, a tendência é que nos pergunte onde ou como “rezamos a missa” ou faça alguma distorção semelhante. A ideia de forma ainda aparece com muita força, e temos exemplos disso em nossa vivência pessoal. Contudo, por dever de honestidade e reconhecimento do cenário social contemporâneo, fora da “bolha” dos espíritas, o uso da palavra “ciência” também o faz, para o senso comum, de maneira distinta ao que ocorria na época de Kardec. Para a grande maioria das pessoas, se lhes oferecemos simplesmente e de imediato o contato com uma nova “ciência”, perguntarão pelo diploma de Espiritismo, as revistas revisadas por pares e o reconhecimento da comunidade científica. Era mais fácil falar em coisas como “ciência filosófica” ou “ciência moral” no tempo de Kardec do que é hoje, exatamente porque conceituações como as de Janet e Ampère estavam mais em voga (não é um juízo de valor, mas uma constatação). Não adianta contestar isso com formulações da Filosofia da Ciência que permitam enquadrar o Espiritismo como científico, por mais importante que seja empreender esse tipo de esforço filosófico, pois as teorias de Filosofia da Ciência não são o mesmo que o senso ou entendimento comum a respeito da palavra “ciência”, assim como a Filosofia da Religião não é o mesmo que o senso comum a respeito da palavra “religião”. Nesse departamento, as rígidas compartimentalizações dominantes no imaginário social e na cultura contemporânea despertam noções de forma que seriam equivocadas em relação ao Espiritismo tanto ao usarmos um termo quanto ao usarmos o outro. Nenhum dos dois, a esse respeito, estaria hoje muito privilegiado.

Ciência, Filosofia e Religião no Espiritismo

A proposta cultural do Espiritismo é mais abrangente do que tudo isso; difere de uma ciência convencional (que estuda objetos do mundo material e, em geral, se realiza dentro de uma comunidade acadêmica), de uma filosofia convencional (sem base experimental) e de uma religião convencional (que promove uma espiritualidade baseada em ritos e formas). É um paradigma amplamente transformador, sob esse ponto de vista. Se o problema for a palavra a ser usada em uma primeira apresentação aos neófitos ou ao público em geral, preferiríamos, pessoalmente, apenas “filosofia” ou “doutrina filosófica”, que seria um ponto de acordo menos controverso. O resto poderia ser apresentado e detalhado por quem se interessasse em se aprofundar e ler Kardec. Para quem já conhece melhor o assunto, porém, parece-nos demonstrado que os três termos (ciência, filosofia e religião) teriam, sim, cabimento, dependendo do significado empregado.

A Proposta de Conciliação

O ponto mais importante, a nosso ver, e com que gostaríamos de concluir, não é exatamente qual a melhor “propaganda”, a melhor “apresentação” dos aspectos constitutivos do Espiritismo; é o de que a divergência é muito mais semântica e superficial do que de conteúdo. É claro que podemos encontrar muitos espíritas que entendem o “aspecto religioso” como algo muito similar ao sentido tradicional e formal do termo, sob influência do triângulo emmanuelino, desfigurando a proposta conceitual de Kardec.

Isso é um problema grave, cujo enfrentamento corroboramos. Podemos, entretanto, também encontrar entre alguns confrades certo “cientificismo” ou “textualismo” intransigente que se apresenta como “científico”, mas pouco tem de fato desse caráter. O que essencialmente temos aqui, dissipada a névoa semântica, é que alguém como Herculano Pires, ao afirmar o aspecto religioso, não necessariamente está afirmando que o Espiritismo tenha sacerdócio ou rituais. Igualmente, alguém que prefere negar o aspecto religioso, atendo-se às formulações textuais de Kardec, não necessariamente está negando Deus, a lei de adoração ou a moralidade evangélica.

Portanto, ficamos com o seguinte: temos espíritas que igualmente entendem que Deus existe, que a alma é imortal, que há reencarnação, que há progresso espiritual, que Jesus é o modelo moral central, que a doutrina tem consequências morais, que a prece é útil e necessária, que existe a lei moral de adoração, que devem buscar a transformação moral própria, que o método de Kardec é o critério fundamental para averiguar as mensagens espirituais, que obras mediúnicas isoladas não detêm autoridade para transformar ou superar os fundamentos espíritas, que as evocações de Espíritos podem e devem ser praticadas pois o Espiritismo é um espiritualismo experimental.

A única diferença entre eles é que uns admitem uma palavra, “religião”, que sequer constitui um princípio doutrinário, e outros não.

Faz sentido que a luta por uma palavra seja mais importante do que o acordo quanto aos conceitos fundamentais?

Uma classificação histórica não deveria ser transformada em um dogma, ignorando-se a bibliografia específica utilizada e o contexto do discurso. Certamente, podemos acusar uma visão mais “religiosa”, de flexão tradicional, como responsável mais ou menos direta pelos vários descaminhos do movimento espírita no Brasil, mas essa não foi a causa de seu enfraquecimento na França, por exemplo, que mereceria exame específico. Não nos parece, sinceramente, que o termo seja o grande problema a ser enfrentado para a doutrina se fortalecer no campo cultural da atualidade.

O Espiritismo possui um fundamento científico-experimental particular, uma elaboração filosófica central e consequências morais e espirituais dessa elaboração, que podem ou não ser denominadas religiosas. A denominação “religião” é legítima quando entendida em sentido não institucional, não dogmático e não eclesiástico; mas não é indispensável à definição do Espiritismo, podendo ser recusada por quem prefira reservar o termo a formas históricas específicas de religião. Esse deveria ser o ponto de acordo, e poderíamos nos concentrar no trabalho mais efetivo pelo esclarecimento e prática das ideias, que são o mais importante. É, ao menos, nossa sincera opinião.

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Sobre o Autor

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Lucas Berlanza é jornalista, escritor e presidente do Instituto Liberal. Autor de livros como "História Geral do Espiritismo: Resumo Expositivo", "O Espiritismo perante seus inimigos e desafios contemporâneos" e "O Progresso Segundo o Espiritismo"

  1. O evangelho segundo o espiritismo > Capítulo I – Não vim destruir a lei > Aliança da ciência e da religião.
  2. Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Novembro > Notícias bibliográficas.
  3. O que é o espiritismo > Preâmbulo.
  4. Resumo da lei dos fenômenos espíritas > Dos Espíritos
  5. O livro dos espíritos > Introdução ao estudo da doutrina espírita > XVII. u
  6. O livro dos espíritos > Introdução ao estudo da doutrina espírita > VII.
  7. Idem
  8. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos – 1859 > julho > Resposta à réplica do abade Chesnel em “L ‘Univers”.
  9. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos – 1861 > janeiro > La Bibliographie catholique” – Contra o Espiritismo.
  10. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos – 1869 > janeiro > Estatísticas do espiritismo.
  11. https://www.fundacaoherculanopires.org.br/no-limiar-do-amanha/401-no-limiar-do-amanha-programa-134.html?utm_source=chatgpt.com. Acesso em 20.08.2026.
  12. https://www.arthur-conan-doyle.com/wiki/Conan_Doyle_Tells_of_Spiritualism%2C_the_Great_Religion_of_the_Future?utm_source=chatgpt.com. Acesso em 20.08.2026.
  13. https://www.arthur-conan-doyle.com/wiki/My_Judgment_on_Survival?utm_source=chatgpt.com. Acesso em 20.08.2026.
  14. PIRES, Herculano. O Centro Espírita. Paideia, 2001, p. 86.
  15. www.oconsolador.com.br/ano8/366/oespiritismoresponde.html. Acesso em 24.07.2022.
  16. Finlay, Hueston E. (2005). “‘Feeling of absolute dependence’ or ‘absolute feeling of dependence’? A question revisited”. Religious Studies.
  17. Tylor, E.B. (1871) Primitive Culture: Researches Into the Development of Mythology, Philosophy, Religion, Art, and Custom. Vol. 1. London: John Murray; (p. 424).
  18. James, William (1902). The Varieties of Religious Experience. A Study in Human Nature. Longmans, Green, and Co.
  19. Tillich, P. (1959) Theology of Culture. Oxford University Press; (p. 8).